as solteiras e as lésbicas

“Qualquer ataque à solteira é inevitavelmente um ataque à lésbica. O direito das mulheres de serem lésbicas depende do nosso direito a existir fora de relacionamentos sexuais com homens. Quando as lésbicas são estigmatizadas e insultadas, então, também, todas as mulheres que vivem independentemente de um homem.”

— Sheila Jeffreys, The Spinster and her Enemies.

“Disseram que eu sofro homofobia”

“Nos anos 80, o hábito feminista de desenvolver uma auto-crítica pesada e análise política, aliadas à crença na possibilidade de mudança pessoal segundo os próprios interesses e os da liberação lésbica, foi substituído em alguns círculos lésbicos por uma crença na identidade ou destino invioláveis e inevitáveis, baseados em sentimentos acríticos sobre “quem você realmente é”. A ideia de uma construção social e, certamente, a ideia de que era bom sujeitar seus “sentimentos” a análise em contexto feminista, tornaram-se ofensivas para a auto-percepção de outras lésbicas. O feminismo interrompia a busca pela verdade.”

Sheila Jeffreys, The Lesbian Heresy


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[desenho por Nina Scarnia]

Por que um movimento autônomo de lésbicas

“As culturas criadas por homens excluem mulheres rotineiramente, e a identidade dos homens depende da opressão das mulheres. A cultura dos homens gays não é de fato diferente. Marilyn Frye sugere que as culturas de homens gays e homens héteros compartilham os mesmos princípios básicos de falocracia, como a presunção de cidadania masculina; idolatria do pênis; homoerotismo masculino, ou amor fraterno entre homens; desprezo por mulheres, ou ódio a mulheres; compulsoriedade do modelo masculino heterossexual; e a presunção de acesso do falo a tudo. Ela vê o potencial revolucionário das lésbicas como a rejeição desses princípios.

O amor entre homens é algo que torna obvio a maneira como homens gays e mulheres lésbicas diferem. Homens gays desejam e amam os membros da classe dominante, a classe dos homens. Nesse sentido, homens gays são leais ao princípio básico da supremacia masculina, amor/lealdade entre homens.

O direito quase universal a foder – de afirmar sua dominância individual e máscula sobre tudo o que não é ele mesmo, por meio do uso desse direito para gratificação fálica, ou auto-afirmação, em nível físico ou simbólico. Ele pode urinar ou ejacular em qualquer objeto físico, dentro ou fora, e tudo pode ser penetrado por seu pênis, seja um animal não-humano ou uma mulher.

A única limitação séria para isso, além daquelas impostas pela propriedade, é que homens não deveriam foder outros homens, especialmente homens adultos de sua própria classe social e raça. Apesar de homens gays violarem essa regra, eles são tão leais ao principio do acesso fálico generalizado quanto os homens héteros, e vão além. Frye explica que a proibição de homens foderem outros homens é uma maneira de manter o principio da masculinidade no mundo. Ela postula que, se homens tivessem a permissão rotineira de ser entre si exatamente da forma que são com as mulheres, a lealdade masculina seria afetada e a supremacia masculina seria destruída.

 

A direção geral das politicas dos homens gays é a da conquista do direito à masculinidade e ao privilegio masculino para homens gays, e promover o aumento do campo de alcance do acesso fálico até o ponto em que seja, de fato, absolutamente ilimitado. A direção geral das políticas do feminismo lésbico é destruir o privilegio masculino, desmantelar a masculinidade, reverter a busca pelo acesso fálico, colocando em lugar da regra de que “é permitido a menos que seja explicitamente proibido” a regra de que “é proibido a menos que seja explicitamente permitido”.

 

(Sheila Jeffreys, The Lesbian Heresy)

orgulho lésbico – andrea dworkin

Para mim, ser uma lésbica significa três coisas.
Primeiro, significa que eu amo, acalento, e respeito mulheres em minha mente, em meu coração, e em minha alma. Esse amor de mulheres é o solo no qual a minha vida é enraizada. É o solo de nossa vida comum junta. Minha vida cresce desse solo. Em outro solo, eu morreria. De todas as maneiras eu sou forte, eu sou forte por causa do poder e paixão desse amor carinhoso.
Segundo, ser uma lésbica significa para mim que existe uma paixão erótica e intimidade que vem do toque e gosto, uma selvagem, picante ternura, um suor doce e molhado, nossos seios, nossas bocas, nossas vulvas, nossos cabelos emaranhados, nossas mãos.
Eu falo aqui de uma paixão sensual tão profunda e misteriosa quanto o mar, tão forte e tranquila como a montanha, tão insistente e mutável como o vento.
Terceiro, ser uma lésbica significa para mim a memória da mãe, lembrada em meu próprio corpo, procurado, desejado, encontrado e verdadeiramente honrado. Significa a memória do útero, quando nós formávamos uma só com nossas mães, até o nascimento quando nós éramos separadas dilaceradamente. Significa uma volta àquele lugar interior, no interior dela, no interior de nós mesmas, aos tecidos e às membranas, à umidade e ao sangue.
Existe um orgulho no amor carinhoso que é nosso terreno comum, e no amor sensual, e na memória da mãe – e esse orgulho brilha tão resplandecente quanto o sol de verão ao
meio-dia. Esse orgulho não pode ser degradado. Aqueles que o degradariam estão na posição de atirar punhados de lama ao sol. Ainda ele brilha, e aqueles que arremessam lama somente sujam suas próprias mãos.
Às vezes o sol é coberto por camadas densas de nuvens negras. Uma pessoa olhando de baixo juraria que não há sol. Mas ainda o sol brilha. À noite, quando não há luz, ainda o sol brilha. Durante a chuva ou granizo ou furacão ou tornado, ainda o sol brilha.
Será que o sol se pergunta “Eu estou bem? Eu valho a pena? Existe o suficiente de mim?” Não, ele queima e brilha. Será que o sol se pergunta “O que será que a lua pensa de mim? O que Marte sente a meu respeito hoje?” Não, ele queima, ele brilha. Será que o sol se pergunta “Sou eu tão grande quanto outros sóis em outras galáxias?” Não, ele queima, ele
brilha.
Nesse país nos próximos anos, eu acredito que existirá uma terrível tempestade. Eu acho que os céus se escurecerão além de qualquer reconhecimento. Aqueles/as que caminham nas ruas as caminharão na escuridão. Aqueles/as que estão em prisões ou instituições para doentes mentais absolutamente não verão o céu, somente a escuridão fora de janelas gradeadas. Aqueles/as que estão famintos/as e em desespero absolutamente não poderão olhar. Eles/as irão ver a escuridão enquanto ela se deita no chão em frente a seus pés. Aquelas que são estupradas olharão para a escuridão como se olhassem para o rosto do estuprador. Aqueles/as que são assaltados/as e brutalizados/as por loucos irão olhar atentamente para a escuridão para discernir quem está se movendo na direção deles/as a cada momento. Será difícil de lembrar, enquanto a tempestade se enfurece, que ainda, mesmo que não consigamos ver, o sol brilha. Será difícil para lembrar que ainda, mesmo que não consigamos ver, o sol queima. Nós ainda tentaremos vê-lo e tentaremos senti-lo, e esqueceremos que ele ainda nos aquece, que se ele não estivesse lá, queimando, brilhando, essa Terra seria um lugar gélido e desolado e estéril.
Enquanto nós tivermos vida e respiração, não importa quão escura a Terra nos rodeie, o sol ainda queima, ainda brilha. Não existe hoje sem isso. Não existe amanhã sem isso. Não
existiria nenhum ontem sem isso. Essa luz está no interior de nós – constante, aquecida, e cicatrizadora. Lembrem-se disso, irmãs, nos tempos escuros que estão por vir.

[Andrea Dworkin – in Our blood]