13 de outubro – Dia das Rebeldias Lésbicas, Memória das raízes lesbofeministas na Latinoamérica/Abya Yala

“O Beijo” por Nuvem V.

13 de outubro – Dia das Rebeldias Lésbicas, Memória das raízes lesbofeministas na Latinoamérica/Abya Yala.

Por Jan R.

A igualdade implica um caminho de comparação”

(Luce Irigaray)

Somos fugitivas da nossa classe

assim como os escravos americanos

fugiam da escravidão para serem livres”

(Monique Wittig)

Em 2006, no Chile, país marcado pela mais sanguinária ditadura no continente, e igualmente com combativas resistências, ocorreu o VII Encontro Lésbico Feminista Latinoamericano e Caribenho, que levava o título de “Pensando Autonomias desde uma Rebeldia Cúmplice”. O encontro foi marcado desde o começo pela aspiração a algo diferente do caminho que vinha levando muitos movimentos feministas nos anos 90 em diante: institucionalização, burocratização e cooptação para esferas governamentais e agendas de financiadoras internacionais. Segundo analisa Ochy Curiel na cartilha que registra a Memória do ELFLAY Colombia de 2014, a abertura democrática se deu conjuntamente com o interesse da globalização e do imperialismo de instalar o Neoliberalismo no território chamado latinoamericano – a Abya Yala, seu nome originario – recém saído da era dos regimes militares, e para isso necessitava de uma estabilidade política. Para isso promoveu um cidadanismo liberal por meio da cooptação das lideranças populares para cargos em organismos internacionais e financiamento de ONGs, para fazer dos movimentos sociais algo funcional ao sistema e com demandas reformistas do mesmo, ao invés de revolucionárias. O movimento lésbico sempre ficou um tanto a parte dessa tendência, talvez justamente por sua condição abjeta e ininteligível à heterorrealidade: o fato da não reprodução. Boa parte do ativismo feminista vinha sendo financiado por editais de direitos reprodutivos. Isso mostra o primeiro ponto da rebeldia lésbica: o lugar favorável da estrangería à cultura masculina, possibilidade de criação de Outra cultura e éticas, de outra perspectiva de mundo.
O encontro foi marcado pela discussão sobre Lesbiandade para além da sexualidade ou de uma identidade reivindicatória ante ao Estado (como é a política da Visibilidade), mas como projeto político emancipatório para todas mulheres, sendo as lésbicas prófugas do sistema heterossexual. Se aprofundou ali a formação política, facilitado pelo fato de que já havia lá um trabalho anterior e tradição de lutas graças ao ativismo e teoria de lésbicas como Margarita Pisano, Edda Gaviola, que com a heterofeminista Sandra Lidid fundaram o movimento autonomo feminista no Chile e formaram o grupo Complices, e o grupo Afuera de lésbicas radicais criado também por Pisano. As discussões se deram em torno a história do movimento, teoria lésbica, autonomia, rebeldia, radicalidade, utopia, e contexto no qual se encontravam enquanto lésbicas, analisando a vida das lésbicas em relação à fenômenos estruturais, sistêmicos e regionais destas. Um continente marcado por ditaduras, invasões colonialistas, intervenções militares, guerras civis, paramilitarismo, feminicídio, racismo, pobreza, ataque à indigenas, privatizações, resistências populares, exploração humana, animal e da Natureza. E desde toda essa reflexão, definir coletivamente qual projeto político se quer fazer da Lesbiandade.
Isso se deveu à vantagem da condição lésbica de marginalidade: no contexto latinoamericano por exemplo, foi fundamental o trabalho do GALF, que chegou a se replicar no Peru enquanto grupo lésbico. Nos periódicos Chana com Chana brasileiros, frequentemente vemos o debate de autonomia, com algumas páginas com o logotipo do Mujeres Libres por exemplo. Especialmente Rosely Roth tem um artigo de 1983 no número 4 do boletim, sobre Autonomia dos movimentos sociais, onde relata como a cooptação por partidos reduzia a potência política dos movimentos. As lésbicas sempre sofreram extrema exclusão nos movimentos [hetero]feministas, que as queriam esconder, e dentro dos espaços de homens homossexuais, gays, elas também eram invisibilizadas, e também os partidos políticos e a esquerda sempre subestimaram, invisibilizaram e diminuíram as lutas “homossexuais”. E isso impulsionou sua autonomia, a mesma história se repetindo nos EUA, Mexico ou Brasil. Essa exclusão se fez vantajosa para perceber como estes movimentos tendiam ao reformismo e a se firmar no aspecto contracultural do ser lésbica, a refletir por que essa exclusão acontecia: o quão desestabilizadora é a lesbianidade para o sistema, para a dominação masculina, e quanto a heterossexualidade é uma ferramenta política de manutenção dessa dominação. As lésbicas estando fora, criam comunidade, autonomia e ações diretas, tomando responsabilidades de moldar suas vidas dentro dos seus ideais separatistas de autogestão das sapatonas.
Foi um encontro marcado pelos avanços políticos do movimento de lésbicas, em clara ruptura e reação à tendência de LGBTização das lésbicas, e assimilação ao conceito de Diversidade Sexual, que esvazia a aposta e discurso lésbico. Neste encontro se profundizou a Lesbiandade como projeto político transformador, impactando ao neoliberalismo patriarcal, o racismo, o militarismo, a colonização, o etnocídio… Uma proposta de mudança civilizatória, propondo uma outra cultura fora da história masculina do Domínio.
A data foi decidida em Assembléia, com mais de 200 lésbicas-feministas de vários países. O primeiro encontro Lésbico Feminista ocorreu no México em 1987 e também ocorreu em um 13 de outubro, iniciando numa sexta-feira, dia das bruxas. E assim se decidiu pela data, impulsada pela sincronicidade. Também o 13 de outubro foi data escolhida para o primeiro encontro no México porque “é o dia seguinte à maldita chegada dos colonizadores às terras indígenas” segundo Angelina Marín, ativista lesbiana feminista da coletiva Moiras, em seu discurso na Plaza de las Armas, onde ocorreu a concentração para a marcha das Rebeldias Lésbicas após o encontro chileno. Ponto escolhido devido à história de assassinados e desaparecidos pela ditadura pinochetista. (fonte: blog Memoria Feminista Autonoma, texto de Victoria Adulnate). Todos encontros latino-americanos terminam com uma marcha ao final com 300 lésbicas feministas de várias partes do continente. Então foram convocadas ações no continente todo nessa data, de coletivas lésbicas que não de dobram ao opressor e nem mendigam direitos, senão que os exercem. A idéia da data é que ocorram atividades das mais variadas, marchas, exibições de filmes, pixações, discussões, festivais culturais… que celebrem as existências lésbicas como ato de rebeldia ante a heterosexualidade como sistema político normativo e obrigatório que explora e oprime as mulheres, recuperando as histórias e genealogias lésbicas em suas teorias, acionar político e no prazer de ser lésbica, celebrando também nossos erotismos como forma radical de alegria, descolonização e sanação dos primeiros territórios invadidos: nossas corpas.
Retomar o dia das Rebeldias Lésbicas é importante no Brasil em tempos em que a lesbianidade vem sendo esvaziada enquanto proposta política, sendo assimilada para dentro da idéia de “Diversidade Sexual”. O conceito de Diversidade vem do que mencionei no começo – a ação da globalização neoliberal em países de terceiro mundo, e suas agentes ONGs, financiadoras, partidos políticos, buscando acomodar movimentos de resistência como minorias identitárias que apelam direitos ao mesmo Estado genocida que as esmaga. Diversidade esconde políticas de acomodação ao sistema, e a idéia de Inclusão, que dilui a nossa potente Diferença, oferecendo a pobre Igualdade com os heterossexuais ou como mulheres, com os homens. O Lesbianismo como ética da Diferença não se basta em obter os mesmos privilégios heteros como casar, adotar, formar família, ou aparecer na mídia (representatividade). Nem em obter, enquanto mulheres, igualdade com homens ou escalar no seu regime de opressão e colonização, suas estruturas de dominação como empresas ou secretarias governamentais. A Lésbica Rebelde entende que nossa opressão só terá fim quando esses sistemas forem desmantelados conjuntamente, e a nossa inclusão nele ou algumas migalhas não serão suficiente para libertar a todas e todos povos oprimidos, animais ou a planeta. Lembrando que animais e Natureza são feminizados numa Ordem Simbólica patriarcal, logo o Ecocídio e Femicídio partilham a mesma logica masculina necrofílica e invasora/estupradora.
Então a Ética da Igualdade, Liberal, sob o discurso de “Diversidade”, se constitui numa estratégia de fragmentação e diluição da proposta lésbica. Quando mal vemos, nos tornamos uma mera letra insignificante no amontado de signos e bandeiras da hoje enorme sigla LGBTTQIetc, com quem dizem que temos que nos unir muitas vezes por meio de pânico quanto à violência heterossexual (como se homens fossem nos proteger). Basta ver o que aconteceu com as caminhadas lésbicas em São Paulo, que este ano foi encabeçada por uma faixa no estilo institucional, aquelas impressas em gráfica provavelmente com algum financiamento estatal ou partidário pelo preço que custam, levando o enorme mote: “Mulheres Lésbicas e Bis, Trans e Cis: Na mesma luta pela vida e por liberdade”. O sistema realmente tenta convencer que se trata de uma mesma luta e nos enfiar “todes” no mesmo saco para assim nos administrar melhor. As marchas lésbicas brasileiras inspiraram as marchas das rebeldias lésbicas, por termos sido pioneiras nesse tipo de manifestação pública levando a Lesbiandade às ruas como forma de visibilidade rebelde e redefinição do ser lésbica não como algo privado, mas político. Mas agora, estão deixando de existir para serem renomeadas e apagadas em sua história, enquanto Caminhada “Lesbi”, os seminários de lésbicas são agora “seminários Lesbi”, e votam para que se tornem “Lesbitrans”, fazendo sem sentido a própria existência de um movimento lésbico próprio, que sem nem perceberem, foi assimilado ao LGBT se tornando ele. Aqui não estou a negar a importância de que todos movimentos dissidentes sexuais se organizem politicamente e se unam em momentos em que seja necessário e estratégio, mas que devemos nos perguntar de quem é o interesse em desarticular os espaços próprios de luta e fortalecimento de cada questão, porque são questões diferentes. Não somos a versão feminina do homem gay e a corpa – diferença sexual – importa, quando falamos em Patriarcado que enxerga corpos femininos como recursos e mais antigo capital, o reprodutivo
Assim o neoliberalismo na sua forma de colonização de territórios lésbicos autônomos pela propaganda ideológica do queer (ideologia colonial norte-americana que se impôs com sucesso bastante devido aos homens gays já serem parte do problema sendo homens) e pela demanda de partidos políticos oportunistas e eleitoreiros do qual essas mulheres fazem parte, se impôs nos movimentos lésbicos. Também minha hipótese do por que isso veio ocorrendo, é pelo próprio sucesso da implantação cultural do neoliberalismo, que produziu subjetividades próprias do liberalismo: individualistas, consumistas, sem história, ou na pós-história, onde não importa mais lutar os regimes opressivos e sim, aplaudir a propaganda da uber com a sua bandeira identitária. A Diversidade de Mercado é a liberdade de consumir o que quiser, a falsa liberdade capitalista.
O corpo das mulheres é também um território político invadido e ocupado há seculos, assim como é a Abya Yala. Lésbicas são aquelas que expulsaram os invasores homens de seu território fundamental. Como diz Catherine Mackinnon:“A Sexualidade é para o Feminismo o que o Trabalho é para o marxismo: aquilo que nos é mais próprio e que mais é expropriado”. Ser lésbica é um ato de resistência, são aquelas que resistem em seus territórios-corpo. As deturpações de feminismo ou NeoPatriarcado (Yan Maria Castro) são uma forma dos homens retomarem nossos territórios-corpo, a corpa lésbica nega o acesso masculino. Distorcer o significado radical e genealógico, ancestral, do ser lésbica vem sendo uma guerra psicológica empreendida pelos homens contra nós por meio das novas políticas de identidade do queer e generismo.
Saber nossa história, recuperar genealogias de lutas e pensamento, fazer formação política como fizeram as chilenas em 2006, pode ser a nossa melhor aposta para rearticular o movimento lésbico enquanto resistente, rebelde e combativo, para longe de uma inclusão que é falsa, romântica, maternal e conciliadora como a boa e velha feminilidade, mais antiga colonização mental masculina sobre mulheres.
FONTES:
ADULNATE, Victoria. 13 DE OCTUBRE: DÍA DE REBELDÍAS LESBIANAS FEMINISTAS LATINOAMERICANAS Y CARIBEÑAS. 2006. Em http://feministautonoma.blogspot.com/2007/10/13-de-octubre-da-de-rebeldas-lesbianas.html
CASTRO, Yan María Yaoyólotl. La Cosmopercepción Indígena Lesbofeminista ante el generismo capitalista. Una perspectiva desde el lesbianismo feminista comunista indígena. Em “Pensando los Feminismos en Bolívia – Série Foros 2”. Creativa 2. La Paz, Bolívia: 2012.
CURIEL, OCHY. EL 7MO ENCUENTRO LÉSBICO FEMINISTA: TRASCENDENTE e HISTÓRICO. 2006. Em https://elflacguate.blogspot.com/p/los-elflacs.html
FRANULIC, Andrea. Fala Sobre dia das Rebeldias Lésbicas “MOVIMIENTO REBELDE DEL AFUERA PLAZA YUNGAY”, 2012. Em: https://www.youtube.com/watch?v=sQK1QfFxYbA
MOGROVEJO, Norma. Un amor que se atrevio a decir su nombre. La Lucha de las Lesbianas y su relacion con los movimentos homossexual y feminista en latinoamerica. Plaza y Valdes editores. México, DF. 2000.
MOGROVEJO, Norma. VIII ELFLAC GUATEMALA. ¿DE QUE NOS TIENEN QUE CON-VENCER? 2010. Em: https://normamogrovejo.blogspot.com/2016/02/viii-elflac-guatemala-de-que-nos-tienen.html
Memórias X ELFLAY (ENCUENTRO LÉSBICO FEMINISTA DE ABYA YALA) 2014.
ROTH, Rosely. Autonomia. Chana com Chana. n. 4. 1983.

Jornada da Memória Lésbica – 24 de Agosto de 2019. Registros e manifesto

Este ano foi comemorado 50 anos da revolta de Stonewall, apesar de nunca mencionarem que foi uma insurreição  iniciada por uma lésbica butch Drag King, a Stormé DeLarverie. Mas essa é a nossa história como mulheres e lésbicas? Desde o … Continue reading

A Mercantilização da Comunidade Lésbica*

Patricia Karina Vergara
(feminista mexicana, lésbica feminista radical autônoma, gorda, indígena, mãe de uma filha)
tradução livre por hembrista@riseup.net
 SORORIDADE

 

Não é muito popular ser a “chata do rolê” que reclama sobre o consumismo na época das festas natalinas, enquanto o resto da comunidade toda está pendurando luzinhas pisca-pisca, montando a árvore de Natal e cantando musiquinhas típicas. A mesma impopularidade e incômodo com minhas interlocutoras encontro toda vez que abro a boca para problematizar a estrutura consumista em que está submergida a comunidade LGBTQetc: o modelo do antro/gueto, o embrutecimento com álcool, a sexualidade coisificada e coisificante e o abuso de drogas. Porém, minha preocupação pessoal e concreta se refere especificamente ao que me toca: as lésbicas, a restrição das nossas vivências lésbicas à logica dos bares/festas/”rolê” que vem predominando em nossa comunidade.

 

Antes de qualquer coisa, reforço aqui que eu não sou contra festas nem as detesto, nem tampouco os bares, nem as bebidas alcoólicas, nem tampouco a socialização que ocorre nesses ambientes. Mil vezes eu venho aceitando com prazer convites para uma cerveja com amigas, uma ou muitas doses, fui organizadora de festas, fui e sou frequentadora de algumas. Acredito no exercício sexual livre, sempre e quando seja responsável e consensual. Inclusive, conheço e respeito o uso de substâncias que levam a estados alterados de consciência com fins rituais, recreativos, espirituais, de busca ou simplesmente experimentais.
Reconheço – ora como não? –  a necessidade de espaços de convivência, encontro, e de celebração para esta comunidade. Porém, isso que escrevo é um chamado a nos perguntarmos, desde o fazer lésbico politizado, sobre o que está por trás das relações e organização, interação das lésbicas, sempre em torno desta forma mercantil de socialização/alienação [1]. Por exemplo, questionamos nossas relações íntimas e criticamos duramente a reprodução do modelo heterossexual onde, lamentavelmente, há quem assume o papel dominante e outra que aceita o papel de submetida e se repetem as hierarquias já conhecidas.[2] Como resposta, as lésbicas somos capazes de criticar, contribuir, e encontramos que não necessariamente temos por quê imitar tal modelo. Também podemos questionar e reconstruir as formas em que nos relacionamos como comunidade, de nos divertirmos ou dos espaços de ócio e a partir da reflexão crítica, fazer estremecer o modelo pré-fabricado, capitalista, patriarcal, que nos deram.
Podemos estabelecer, para começar, que o submergir na mercadotecnia da diversidade e da lógica de nicho mercadológico, que nos aliena, ou seja, nos distancia uma das outras e de nós mesmas e impede a busca de objetivos comuns. Nos submetemos a imposição patriarcal de valores e, em meio a este submundo, competimos para ver quem tem mais fama, beleza física, quem tem mais encontros ou conquistas sexuais, quem pegou mais minas, quem tem mais likes, quem bebe mais, quem tem melhores bens de consumo, quem tem melhor visual, quem é mais que quem…

 

Claro que isso ocorre também nos ambientes homossexuais, heterossexuais e em geral. E também valeria a pena a discussão a respeito disso. Porém, ao nos focar em falar das lésbicas, seria bom pensarmos nas oportunidades valiosas que nos estamos negando. Que aconteceria se jogássemos a cultura de imagem e a mercantilização no cesto de lixo e pudéssemos começar a nos perceber entre nós mesmas como aliadas, nos aproximar, nos convidar a refletir em conjunto, nos apreciar por nossos valores intrínsecos e quem sabe, talvez poder nos organizar em ações articuladas, por exemplo, para apoiar aquelas que foram expulsas de casa, que estão em situação de risco, para exigir justiça jurídica, apoiar àquela que precisa de nossa ajuda, criar grupos de trabalho intelectual, artístico ou político que hoje certamente em México existem apenas alguns pouquíssimos, ou simplesmente, para refletir sobre nossas existências lésbicas, celebrar, criar cultura, comunidade, preservar nossas memórias, recitar poesias, cantar, nos cuidar umas entre as outras.

 

Não se trata simplesmente de uma proposta utópica e sonhadora, senão que é um convite para começarmos a buscar opções alternativas de vida e de ação tanto política como cotidiana daquelas que nos foram dadas. O fenômeno da geração que hoje vive é o da era do desencanto. Do pessimismo, da descrença em processos coletivos ou políticos. As grandes teorias transformadoras parecem ter ficado no século passado. Idéias de transformação social são tachadas pelo sistema como coisas ultrapassadas, a militância política parece ‘careta’ demais. Parece muito distante ou impossível a promessa de uma ordem social mais justa. O Capitalismo parece ter triunfado de uma forma nunca antes vista, o monopólio de toda violência por parte do Estado e seus aparatos repressivos torna qualquer rebeldia meramente pictórica, a vigilância sobre nossas vidas reduz nossa manifestação política a expressão cidadã tímida, a revolta está cercada pelo sistema, monitorada, contida. E a política também é assimilada pela estratégia consumista e festiva, de “rolê” e subcultura urbana.

 

Para as mulheres a quem tivemos negados nossas contribuições pelos livros de história, afastadas sistematicamente do poder e despojadas de nós mesmas, o vazio é maior. E assim, respiramos diariamente o desencanto, cinismo, falta de solidariedade/sororidade umas  com as outras. De tal modo que as únicas duas premissas possíveis são as impostas desde o Poder: o valor do dinheiro como fonte de toda satisfação e o embotamento dos sentidos. O valor da imagem e do consumo.

 

Como a ordem econômica estabelecida garante que o dinheiro e suas possibilidades são inacessíveis para a maioria, então nos voltamos para a segunda premissa: apostamos à evasão contra toda e qualquer ação política, ao desprezo por qualquer militância e jogamos a não olhar, a nos conformarmos com o que há.

 

Quando a ansiedade psíquica, a insatisfação ou a solidão começam a pesar muito, uma das possíveis saídas é ir gastar 30 conto em umas cervejas e acreditar que é melhor isso que nos questionar o por quê de não haver outros espaços, outras práticas, e outros serviços, outras lógicas, talvez desde a economia sororária e de troca, feiras lésbicas autogestivas para expormos nossos trampos. Enfim, encontrar opções de lazer que não passem pelo consumo, ou inventá-los nós mesmas. Preferimos não ver a violência que nos cerca ou nos conformar com saber que sempre esteve aí, ao invés de tomar responsabilidade sobre nossas vidas e começar a fazer, a propôr, a transformar no imediato.

 

Temos que aprender a reconhecer que o poder de comprar um brinquedo sexual, ver um filme pornô, ou a possibilidade de ficar com alguém em uma festa e terminar na cama sem conhecer sequer seu nome não são reivindicações nem constituem nenhuma libertação sexual, mas sim, ao contrário, formas efetivas que os empresários encontraram para comercializar nossa sexualidade e lucrar – eles, homens brancos, patriarcas, heterossexuais muitas vezes – com nossa comunidade. [3] E que por outro lado, nos expôem a riscos como transmissão de DSTs. [4]

 

As vezes parece que o movimento lésbico tem por única demanda política que não fechem o bar onde se amontoam a juventude gay aos domingos. E na miopia dos exemplos anteriores ficamos tomando uma cervejinha enquanto decidimos quem vamos pegar hoje e ‘secamos’ o ambiente em busca da ‘caça do dia’. Assim, uma multidão de lesbianas que podiam ser forças transformadoras, se convertem em um mercado adestrado rentável pro Capital e nada mais. Onde fica o potencial rebelde, questionador, crítico, da lesbianidade?
São os negócios em geral, bares, botecos, baladas, ou a sua lógica transferida à socialização lésbica da mercantilização da diversidade sexual. Da assimilação da potência rebelde da condição política de ser lésbica. É novamente a idéia de que somos identidade/orientação/prática sexual e nada mais. Estes artifícios do sistema são meios efetivos de despolitização a serviço da ordem atual. Se fossem contestatários ou se sua existência tivesse um peso político de importância, como os empresários pretendem nos fazer acreditar, então sua existência estaria agora ameaçada [5]: esses espaços seriam perseguidos, boicotados, sabotados, caluniados, atacados e não tão facilmente existiriam em número crescente. O ‘mercado rosa‘ [6] tem um peso econômico e seu interesse político não é o da transformação. Se existisse uma mudança política, jurídica, e social, ou seja, se não houvesse heterossexismo, já não seriam necessários bares, viagens turísticas, revistas especializadas, sexshops, baladas, boates, bares. Terminada a necessidade de espaços exclusivos gays, se acaba a galinha dos ovos de ouro pros capitalistas interessados neste setor. Por isso, essas empresas são, servindo a seus próprios interesses, um meio efetivo de controle social e nada mais. A lógica de consumo importada dessas comunidades, reproduzida dentro das nossas relações lésbicas, é uma colonização capitalista e patriarcal que serve meramente como forma de amaciar nossa rebeldia, de controle da radicalidade lésbica.

 

Não se trata de censurar ninguém nem de se colocar como guardiãs da boa moral e dos bons constumes. É uma questão de pensar: quais são nossas éticas lésbicas? Uma questão de rebeldia e de sonho de novos valores, formas de nos relacionar, onde o consumismo, a redução da nossa socialização ao álcool, ao entorpecimento por meio de drogas, o consumo de corpos e a apatia política não fossem uma realidade cotidiana que passa a muitas de nós. É possível, muito possível,que seja de outra forma isso tudo. É possível espaços diferentes, rebeldes ao Capital, ao Estado, ao HeteroPatriarcado, de interação genuína entre nós em bases saudáveis e de potência criativa. Se as lésbicas somos humanas, uma vez capazes de ter rompido com a ordem da Heterossexualidade que nos foi enfiada desde pequenininhas, e nos atrevemos a amar e erotizar mulheres à nossa maneira e desde outros princípios, por que não poderíamos nos atrever a retomar para nós a responsabilidade de criar autonomamente, nós mesmas, nosso próprio espaço lúdico e de encontro, tomando ele da ordem existente que nos submete, explora, e deixando de aceitar e meramente consumir o que nos colocam?

 

Façamos um dia de ida ao campo, ao parque, com frutas e comidas veganas deliciosas feitas em casa, compartilhando, reunamos 200 lésbicas para pintar um mural, um grafitasso, que fale sobre a gente, lancemos bolas de sabão ao céu desde uma árvore nada mais que pela alegria de nos encontrar e de fazer coisas e estarmos vivas. Levemos nossas filhas e filhos a um passeio para ir retomando as consciências coletivas, construamos uma escola rural entre todas, vamos nadar, ensinemo-nos umas as outras a consertar carro, computadores,eletricidade, a andar de skate, bicicleta, e o que mais quisermos. É possível, eu acredito nisso, nos encontrarmos, construirmos, criarmos identidade desde uma história distinta à que nos foi contada, desde uma herstória [7] escrita em tinta própria. Por quê não nos atrevermos?

 

***

 

*Na verdade o artigo original se chamava “Ética e Bons Costumes”, mas como achei que esse título não seria atrativo para a questão central que aborda e problematiza, além de que poderia levar a confusões, eu estou constando aqui nesta nota de rodapé que mudei deliberadamente. [N.T.]
A tradução foi  livremente adaptada, pois o contexto mexicano é outro, as idéias foram traduzidas para ficarem mais inteligiveis e dialogarem com nosso contexto e momento no feminismo e comunidade lésbica.

 

[1] A autora não usa o termo ‘alienação’ no sentido de consciência alienada, como a pessoa desinformada ou ‘ignorante’, mas no sentido de isolamento, de restrição, de redução a um ‘cantinho’ tímido e silencioso, que o sistema faz com esta comunidade, que termina também por separá-la, assim como quando fala do gueto e antro, é sobre como a estrutura heterossexista consegue nos isolar num cantinho pouco ameaçador, nos enfiando num ‘nicho’ de mercado, em entretenimento, de modo a não incomodar, e como assim também nos afasta do nosso potencial rebelde, pois entretêm essa comunidade oprimida com lazer, entorpece (bebidas, consumo, consumo de corpos), e assim a mantêm distraída e ilusoriamente satisfeita ou contente, também tapando a dor da opressão. O sistema capitalista na verdade faz isso com todas pessoas, trabalhadores, e todas minorias rebeldes, transforma em identidades e provêm produtos específicos. Nisso tá imerso o próprio feminismo entendido agora como um “rolê”, onde você pode até mesmo comprar sua camisetinha, bottom e os eventos políticos são entendidos como entretenimento. O desinteresse de lésbicas por fazer política e a totalidade do tempo ‘livre’ retomado pelo Capital, que nos explora todos os dias e no final de semana ainda lucra com nosso descanso pois resumimos nosso momento de não-escrav@s a consumir produtos, o interesse unicamente de exercício da lesbiandade como sexualidade, a socialização lésbica  e até mesmo feminista em torno de consumo de corpos e rostos bonitos, de saídas para consumir… Não que não seja importante a vivência dos prazeres, da nossa sexualidade, a celebração, os afetos, as amizades, nem a descontração… mas a compulsão pelo prazer consumista e o resumir da lesbiandade a isso, o interesse das lésbicas unicamente em eventos de entretenimento e não de reflexão, é muito obviamente uma assimilação das lésbicas à lógica de mercado, e a retirada da potência criativa e radical, e de vivência de prazeres e socialização por fora da lógica mercantilizadora e da sexualidade lésbika  por fora da sexualidade coisificadora. 

[2] Nota da tradutora: não gosto muito da crítica aos papéis Butch e Femme, acho meio duro com lésbicas, acho que a crítica a relações que não são equilibradas em poder é ok, mas a crítica a estética que adotam eu acho lesbofóbica, até porque não depende de voluntarismo mas sim de programação, de socialização feminina ou resistência a essa socialização, que são ambos processos de sobrevivência num Patriarcado.

[3] Por que não estaria o facebook também ligado a isso, se é uma empresa que lucra com nossa participação nela? Qual o lucro que os empresários do facebook, homens, seu inventor, um homem agressor, possuem, estando hoje milionários, ao fomentar nessa plataforma que foi desenhada pra promover hostilidade horizontal e violência, comas diversas ‘tretas’ (mesmo mecanismo do ‘ibope’ televisivo, quando tem uma treta, mais acessos, mais dinheiro rolando) e agressividade entre feministas, fofocas,difamações, exposições… O que não lucram com a exposição de nossas vidas íntimas, nossas fotos, transformando-as num espetáculo público? Qual interesse dos empresários do facebook em fomentar feminismo e lesbianidade da forma que vemos vendo nessas redes, deforma desconstrutiva, hostil, e assimilar radicalidade à lógica da exposição e das guerras de egos? Enquanto as feministas e lésbicas se destróem entre si, os empresários do facebook estão cada dia mais milionários, e estão ‘pouco se fodendo’ para feministas ou mudanças sociais. [N.T.] 

[4] Este parágrafo parece mais uma crítica ao queer e a logica LGBT de liberalismo sexual, mas que creio que as lésbicas também reproduzem e trouxeram dessa comunidade de algum modo, ao meramente enxergar os espaços de socialização lésbicos como de pegação e essa ansiedade por vivências sexuais compulsivas, que a mim me remete a sexualidade patriarcal por ser uma questão de auto-estima relacionada à quantas conquistas tive, com quem fiquei, como se outras mulheres fossem um troféu. E claro, um consumo de aparência,que leva a reprodução de padrões estéticos racistas, gordofóbicos, elitistas, muitas vezes. [N.T.] 

 [5] Como o estão os espaços lésbicos radicais, que nem espaço para reunião possuem, sendo sempre uma dificuldade encontrar portas abertas às nossas propostas ou um espaço tranquilo sem intromissão constante de homens como nos mostra a experiência de reuniões em espaços abertos ‘públicos’, que na verdade são dominados por machos. [N.T.]

[6] Nome dado ao mercado ‘gay’. O poder de compra de homens gays, interessante pro capitalismo, e o por que da militância LGBT ter um status de hegemonia e as paradas gays tanto financiamento. 

Comentário final: A idéia deste artigo não é ignorar as questões de solidão lésbica que levam a termos que procurar os ambientes de consumo para encontrar iguais, mas de questionar o por quê de não retomarmos em nossas mãos o papel de criar espaços realmente radicalmente rebeldes e lesbikos à ordem patriarcal, já que creio eu que sempre que a lesbiandade é assimilada por essas estruturas opressivas e exploradoras, nos heterossexualizam de algum modo. 
 

Também a idéia não é ignorar que as vidas lésbicas são já muito difíceis e duras e que o único que uma lésbica quer, muitas vezes, é sair tomar uma cerveja, relaxar, ir pra uma festa, coisa que a comentadora deste texto também faz, que muitas lésbicas possuem unicamente um ou dois dias da semana livres que não ocuparia com militância, a idéia é trazer uma reflexão e pensar em como reinventar nossas vidas reconhecendo também que estamos tão programadas pelo capitalismo a sermos mercado consumidor que muitas vezes nem percebemos o quanto isso vem definindo as nossas relações umas com as outras [N.T.]

terra lesbika

terra lesbika

 

Onde está a palavra LÉSBICA?

A palavra lésbica e seus espaços exclusivos vem sendo omitidos, excluídos, atacados, difamados, apagados dentro dos espaços e discursos feministas hegemônicos. Isso acontece porque a lesbiandade é uma proposta rebelde que o sistema patriarcal não comporta, e portanto os feminismos bem-comportados, reformistas, subordinados às prerrogativas masculinas, não bancam nem querem bancar enquanto proposta política crítica que consegue até mesmo ir para além do próprio feminismo em potencial transformador.
Essa omissão da lesbiandade e as tentativas de suavização dessa política, além da submissão do feminismo na tentativa de ser aceitável aos homens, ocorre como consequência da própria opressão das mulheres e como reflexo fiél da Heterossexualidade Compulsória. Damos o nome de ‘heterofeminismo’  a toda suposta manifestação de ‘feminismo’ que se encontra atravessada pela lógica heterossexual – a lógica de que mulheres pertencem aos homens, de que homens devem ter acesso irrestrito aos nossos corpos, territórios e vida, a doutrina sistemática de que a relação entre opressores e oprimidos homem e mulher são inevitáveis, naturais e produtos do ‘desejo’ e não relações políticas de dominação. O tal desejo heterossexual não passa de uma tentativa de naturalização de uma relação de opressão entre os sexos. Esse “desejo” – quando existe (se é que existe) – é construído e doutrinado e forçado por uma série de mecanismos políticos: educação, mídia, família, terror psicológico. As mulheres se relacionam com homens porque eles detêm os recursos para sobrevivência destas em todo o planeta, sendo eles quem detêm poder político, recursos materiais, condições econômicas e simbólicas. Portanto o consentimento das mulheres nas relações heterossexuais é produzido pela relação de poder entre classes sexuais nas quais estas se encontram. 
Esses ‘feminismos’, resultados da colonização das mulheres como grupo pelos homens, não pretendem qualquer desafio real e radical à supremacia masculina, senão que pede por meras reformas e algumas  negociações com o Poder, além da reforma impossível dos nossos agressores e opressores. Não cosideramos nossa liberdade negociável com os patriarcas.
Tendo em vista que os espaços feministas são dominados pela heterossexualidade dominante e hegemônica, se torna confortável para a ordem patriarcal, que também se expressa nesse feminismo que sejamos colocadas sempre ao lado das bissexuais e de mil outras categorias políticas, enquanto uma “Diversidade Sexual” na ampla gama de cores de um alegre arco-íris, de modo a abafar o ruído e o estrondo que a palavra lésbica promove, de modo a esconder que a possibilidade de uma existência sem homens, também escondendo que a lesbiandade é uma condição política muito mais rebelde e subversiva do que qualquer outra dessas categorias do GBTTQIetc que não apresentam qualquer ameaça ao Patriarcado, se não é o caso de que as mantêm: se bissexuais mantêm a instituição da heterossexualidade, trans e travestis mantêm o genero e homens gays são homens.
Somos deslegitimadas e tratadas como diversidade sexual e não como mulheres que fugimos da condição de subordinada e recusam a relação com os opressores, como se fizéssemos parte de uma ampla gama de meras práticas sexuais e “identidades” – muitas vezes supremacistas masculinas como sadomasoquismo, “prostituição”/estupro pago de homens sobre mulheres vulnerabilizadas, abuso sexual infantil, heterossexualidade/bissexualidade, e outras – aparentemente coexistentes entre si e com o sistema, nos definindo novamente enquanto sexo. Lésbicas não somos Diversidade nem festa, somos pura fúria contra os patriarcas. Enquanto expressão política da Sexualidade da Desigualdade, jamais haverá revolução enquanto mantemos a Heterossexualidade intacta e inquestionada. Queremos destruí-la pela autonomia das mulheres!
O feminismo hegemônico/heterossexual é resultado da colonização dos homens. A prerrogativa heterossexual se expressa em como estes feminismos, ao invés de constituírem-se em um movimento feminista autônomo em si, termina prestando-se como ferramenta de homens gays (LGBT/Queer/Liberalismo Sexual) ou homens de partido ou homens em cargos de governo ou machos da esquerda anarquista e marxista, na ilusão de que poderá galgar alguma ascensão dentro das estruturas do Poder Masculino. Isso representa o que a Supremacia Masculina consegue fazer com todos desafios à sua ordem: absorver as resistências e tranformá-las em auxiliares do Opressor, desvitalizando a rebeldia e impedindo a radicalização das lutas. 
Vemos a lesbiandade como resposta enquanto ética radical de identificação entre mulheres e de descolonização, e como paradigma do que é o feminismo levado às últimas consequências. Enquanto um certeiro ataque à falorealidade, representa o rompimento/separação com a Cultura Masculina, consistindo para além de mero afeto sexual , na criação de outra realidade, outra existência para nós. Escolhemos a lesbiandade revolucionária porque vemos ela enquanto único desafio sério à colonização masculina.
Não podemos querer revolução se não revolucionamos o íntimo, o privado e o público. Se não nos propomos verdadeiramente a uma mudança radical e total, assumindo-nos como contra-ataque e reagindo com a nossa união, nos conectando com nossas iguais, criando uma comunidade lésbica que nos dê a segurança de saber que não estamos sós, que somos muitas, mesmo que muitas de nós ainda estejamos isoladas, não venceremos o heteropatriarcado. Precisamos nos unir para revolucionarmos, para colocarmos em prática o nosso contra-ataque. Necessitamos uma lesbiandade combativa contra o Terrorismo Masculino.
A proposta dessa virada lésbica é ser uma intervenção que traga a discussão da lesbiandade – uma ferramenta de luta e existência por fora da realidade masculina – e crie um espaço lésbico alternativo, questionando a exclusão da palavra lésbica por parte do feminismo hegemônico e sua lógica heterossexual, e propondo a união entre lésbicas.
Mesmo no meio feminista ainda precisamos pedir licença para existir, e nosso nome – lésbica, sapatão, caminhoneira – não pode aparecer sozinha e em todo seu estrondo e potência. Por isso, nos convidamos onde não somos convidadas, aparecemos, nos visibilizamos, assumimos nós mesmas o papel e o desafio de gerar esse espaço.
O medo da lesbiandade radical e o ataque às lésbicas, as tentativas de distorção e suavização dessa palavra – Lésbica – é um ataque sempre ao que representa a possibilidade de rompimento com homens, evento extremamente ameaçador aos patriarcas. A hostilidade com o feminismo lésbico e a negação de espaços exclusivos é para impedir que mulheres alcancem o estado político e consciência necessária para derrubar de fato o regime de dominação masculina e para transformar suas vidas agora, neste exato instante, sem esperar por mudanças estruturais ou politicas públicas que apenas colocam um esparadrapo no problema, revolucionando sua vida desde o privado e cotidiano.
Não podemos agir em direção à revolução se nos baseamos nas mesmas estruturas que nos oprimem. Tudo que for criado nas estruturas do sistema patriarcal-capitalista-racista-elitista será exatamente como ele (casamento gay, adoção, etc, acomodação ao modelo familiar heterossexista), por mais que a aparência seja diferente. As correntes assim se afrouxam e dão a falsa impressão de liberdade, mas somente estamos nos movimentando dentro do cercado bem delimitado pelos patriarcas, o que  nos mantêm domesticadas e não-ameaçadoras.
Vamos quebrar as correntes que nos prendem ao heteropatriarcado, vamos destruir os laços que ainda nos unem a essa sociedade que nos enfraquece, que barra a nossa voz! FÚRIA LÉSBICA!
Por isso tudo vamos intervir na virada feminista, reunindo as lésbicas interessadas em pensar e viver uma lesbiandade radical, como estratégia de luta, amor e vida!
O FEMINISMO SERÁ LÉSBICO/RADICAL* OU NÃO SERÁ.
SE NÃO FOR SEREMOS LÉSBICAS RADICAIS.
HERESIA LESBICA
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* lésbico = radical. Diferentes palavras para designar a mesma coisa
(versão integral do panfleto distribuído durante a intervenção “Virada Lésbica” durante a Virada Feminista realizada no CCJ em São Paulo em junho de 2015.
Baixe o panfleto aqui: http://heresialesbica.noblogs.org/files/2015/03/virada-panfleto-verso.pdf )

Fúria Lésbica! Fotos do bloco lésbico radical na ex-caminhada lésbica

Na caminhada lésbica e bissexual de SP, fizemos uma intervenção por meio de novamente, reaparecer com nossos chapéis de bruxa e mascaradas. Levamos nossa faixa “Lésbicas Radicais contra o Capital e o Estado Racista Patriarcal” e tambores de latão, lambes, stencil, feirinha de materiais lesboterroristas, máscaras. Na concentração e durante a marcha do nosso bloco podiam-se ouvir os gritos:

“Vem caminhão vem fazer revolução!(Toda feminista pode ser uma sapatão!)”
“Lésbicas Separatistas! Sapatonas convictas! (Eu não vou deixar o Patriarcado me abalar!)”
“Sapatão não é diversidade! Sapatão é resistência!”
“Tire o L do LGBT!”
“Lésbica Radical contra o sistema Patriarcal!”
“Basta já de repressão/pela Santa Inquisição!/Botar Fogo nas Igrejas e Libertar as Sapatão!”
ao passarmos ao lado de uma churrascaria: “Lésbica Radical! Contra a Exploração Animal!”
“Sapatonas contra as Guerras! Sapatonas contra o Capital! Sapatonas contra o Racismo contra o Terrorismo Neoliberal!”
“Sapatona! Sou sapatona! Porque quero ver o Patriarcado em chamas!”
“Acorda! Mulher! Vire sapatão! O homem é machista e ele não vai mudar não!”
“É nossa escolha! A vida é nossa! Eu escolhi amar mulheres! Lesbianize! Radicalize! A vida é nossa! É nossa escolha! Eu escolhi amar mulheres!”
“Não! Não! Lesbofobia não!”
“Odeio homem! Beijo mulher! Beijo mulher beijo mulher beijo mulher!”
“Fúria Lésbica!”

A intenção da ação era provocar e gerar um espaço contestatário à lógica liberal e pouco combativa da caminhada lésbica deste ano, renomeada como caminhada ‘les-bi’. Para opôr as cores do arco-íris LGBT, a cor preta da autonomia das nossas faixas e o lilás feminista/lésbico, auto-explicativos. As máscaras para nos proteger e permitir ousar, mostrar que nossa lesbiandade é de luta, e visibilizar a resistência. Gritando a palavra lésbica, sapatão, mostrar que os espaços lésbicos vivem, e não vão desaparecer!

Sempre atrás, quando a marcha chegava ao final, tomamos a frente dela cantando “Sapatão não é diversidade! Sapatão é resistência!”

Logo mais um relato mais detalhado da experiência.

Intervenção Lésbica Radical na Caminhada Lesbitzyxetc… de Sp

POR UM MOVIMENTO AUTÔNOMO DE LÉSBICAS!!
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O que são as lésbicas?
Somos desobedientes à Dominação Masculina. A violência masculina é o maior problema planetário, dizimando espécies e recursos naturais, matando pessoas por meio de guerras e do capitalismo e racismo. Ser lésbica é escapar ao modo de ser ditado para a classe das mulheres, escapar à apropriação masculina.
Porque somos sapatonas?
Porque voltamos nosso amor, nosso desejo, nosso interesse, nossas forças para as mulheres. Ser lésbica é um ato de resistência, não é uma mera ‘preferência sexual’, pois tampouco é a heterossexualidade algo natural. A Heterossexualidade consiste em uma política de exploração e genocídio das mulheres.
Por que as mulheres são heterossexuais?
Porque são treinadas desde que nascem mulheres neste mundo patriarcal, para que sejam exploradas pelos homens por meio do sexo, afetividade e maternidade. Para que nunca possam escapar a sua condição de casta oprimida. Lésbicas rompem com esse processo de heterossexualização/feminização.
Porque deveríamos politizar nossa vivência sapatão?
Porque uma lésbica já é uma feminista/radical em potencial. Mesmo que não conscientemente, as punições (lesbofobia) que recebemos se deve à insubmissão e ameaça que representamos para o Poder dos Homens. Se deve ao potencial radical que cada lésbica carrega nas suas existências que são pura rebeldia, fortalecendo uma cultura e laços de apoio mútuo entre mulheres. Recusamos a feminização enquanto processo de violência obrigatório que cada mulher sofre desde que nasce neste mundo patriarcal.
Por que nos recusamos a fazer parte do movimento GGGG/LGBT? 
Porque esse movimento não serve nem beneficia às lésbicas e nossa luta não é ao lado dos homens gays que também são machistas. Este movimento não procura ser revolucionário mas sim incluir-nos no sistema patriarcal e capitalista e não destruí-lo. Porque acreditamos que essa perspectiva anula a força política que existe na recusa de se relacionar com homens, com a classe opressora, mascarando o fato de que a heterossexualidade é um regime de dominação violento: temos como resultado da política heterossexual/supremacista masculina no mundo estatísticas gritantes de feminicídios, falecimentos por violência doméstica, estupros, abuso sexual infantil, tráfico de mulheres e meninas para fim de exploração sexual, e muitas outras atrocidades pelo mundo. Além disso, lésbicas são punidas por meio do estupro corretivo e assassinadas a cada momento. Estas são provas do ódio da classe masculina pelas mulheres e lésbicas.
Não nos basta sermos integradas a esta sociedade patriarcal capitalista-racista que se sustenta da nossa exploração. Queremos OUTRA realidade e outro modo de vida. Nossa existência é a própria resistência. 
O movimento GGGGAY não serve as lésbicas. Não queremos desaparecer na ‘sopa de letrinhas’ nem dar nosso tempo a homens. LGBT é um movimento dominado pelos machos gays e para beneficiar a estes. Tire o L do LGBT!
A política lésbica é um ataque radical a supremacia masculina. Estão enfraquecendo essa política por meio da sua transformação em mais uma mera diversidade sexual.
Por que um movimento autônomo de lésbicas?
Lésbicas precisam de espaços próprios para fortalecer sua luta e priorizar suas existências. Vamos gerar e multiplicar mais e mais espaços de resistencia lésbicos! Precisamos fortalecer espaços exclusivos e apenas de lésbicas para termos nossas pautas discutidas e criar outro mundo. LÉSBICAS POR E PARA LÉSBICAS! Bissexuais e outras categorias podem se organizar autonomamente em seus próprios espaços. Bissexuais não possuem radicalidade pois se relacionam com a classe opressora. LÉSBICAS EM PRIMEIRO LUGAR!
O que é a lesbiandade radical?
Acreditamos que a lesbiandade é uma estratégia política radical contra a estrutura de opressão que vivemos, já que ela atinge mais diretamente o regime da heterossexualidade. Nós queremos a destruição desse sistema de dominação, não queremos ser aceitas, nem ser toleradas. Escolhemos ser um risco a supremacia masculina, queremos ser uma ameaça.
Por um lesbianismo radical!
JUNTE-SE A ESSA RESISTÊNCIA!
FÚRIA LÉSBICA!
dia 6/6, 12h.
concentração: praça do ciclista, avenida paulista, SP
oficina de confecção de cartazes lésbico-radicais, máscaras combativas, tambores, stencil, feirinha lesboterrorista.
venham compôr a bloca com a gente!

Feminismo Lésbico e Movimento Gay: outra Supremacia Masculina, mais um Separatismo – Marilyn Frye

Feminismo lésbico e o movimento de direitos dos gays: outra visão da supremacia masculina, outro separatismo” (1F), por Marilyn Frye, do livro “Políticas da Realidade: Ensaios sobre Teoria Feminista.”. Clique para ler e aqui para baixar pdf.