Intervenção Lésbica Radical na Caminhada Lesbitzyxetc… de Sp

POR UM MOVIMENTO AUTÔNOMO DE LÉSBICAS!!
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O que são as lésbicas?
Somos desobedientes à Dominação Masculina. A violência masculina é o maior problema planetário, dizimando espécies e recursos naturais, matando pessoas por meio de guerras e do capitalismo e racismo. Ser lésbica é escapar ao modo de ser ditado para a classe das mulheres, escapar à apropriação masculina.
Porque somos sapatonas?
Porque voltamos nosso amor, nosso desejo, nosso interesse, nossas forças para as mulheres. Ser lésbica é um ato de resistência, não é uma mera ‘preferência sexual’, pois tampouco é a heterossexualidade algo natural. A Heterossexualidade consiste em uma política de exploração e genocídio das mulheres.
Por que as mulheres são heterossexuais?
Porque são treinadas desde que nascem mulheres neste mundo patriarcal, para que sejam exploradas pelos homens por meio do sexo, afetividade e maternidade. Para que nunca possam escapar a sua condição de casta oprimida. Lésbicas rompem com esse processo de heterossexualização/feminização.
Porque deveríamos politizar nossa vivência sapatão?
Porque uma lésbica já é uma feminista/radical em potencial. Mesmo que não conscientemente, as punições (lesbofobia) que recebemos se deve à insubmissão e ameaça que representamos para o Poder dos Homens. Se deve ao potencial radical que cada lésbica carrega nas suas existências que são pura rebeldia, fortalecendo uma cultura e laços de apoio mútuo entre mulheres. Recusamos a feminização enquanto processo de violência obrigatório que cada mulher sofre desde que nasce neste mundo patriarcal.
Por que nos recusamos a fazer parte do movimento GGGG/LGBT? 
Porque esse movimento não serve nem beneficia às lésbicas e nossa luta não é ao lado dos homens gays que também são machistas. Este movimento não procura ser revolucionário mas sim incluir-nos no sistema patriarcal e capitalista e não destruí-lo. Porque acreditamos que essa perspectiva anula a força política que existe na recusa de se relacionar com homens, com a classe opressora, mascarando o fato de que a heterossexualidade é um regime de dominação violento: temos como resultado da política heterossexual/supremacista masculina no mundo estatísticas gritantes de feminicídios, falecimentos por violência doméstica, estupros, abuso sexual infantil, tráfico de mulheres e meninas para fim de exploração sexual, e muitas outras atrocidades pelo mundo. Além disso, lésbicas são punidas por meio do estupro corretivo e assassinadas a cada momento. Estas são provas do ódio da classe masculina pelas mulheres e lésbicas.
Não nos basta sermos integradas a esta sociedade patriarcal capitalista-racista que se sustenta da nossa exploração. Queremos OUTRA realidade e outro modo de vida. Nossa existência é a própria resistência. 
O movimento GGGGAY não serve as lésbicas. Não queremos desaparecer na ‘sopa de letrinhas’ nem dar nosso tempo a homens. LGBT é um movimento dominado pelos machos gays e para beneficiar a estes. Tire o L do LGBT!
A política lésbica é um ataque radical a supremacia masculina. Estão enfraquecendo essa política por meio da sua transformação em mais uma mera diversidade sexual.
Por que um movimento autônomo de lésbicas?
Lésbicas precisam de espaços próprios para fortalecer sua luta e priorizar suas existências. Vamos gerar e multiplicar mais e mais espaços de resistencia lésbicos! Precisamos fortalecer espaços exclusivos e apenas de lésbicas para termos nossas pautas discutidas e criar outro mundo. LÉSBICAS POR E PARA LÉSBICAS! Bissexuais e outras categorias podem se organizar autonomamente em seus próprios espaços. Bissexuais não possuem radicalidade pois se relacionam com a classe opressora. LÉSBICAS EM PRIMEIRO LUGAR!
O que é a lesbiandade radical?
Acreditamos que a lesbiandade é uma estratégia política radical contra a estrutura de opressão que vivemos, já que ela atinge mais diretamente o regime da heterossexualidade. Nós queremos a destruição desse sistema de dominação, não queremos ser aceitas, nem ser toleradas. Escolhemos ser um risco a supremacia masculina, queremos ser uma ameaça.
Por um lesbianismo radical!
JUNTE-SE A ESSA RESISTÊNCIA!
FÚRIA LÉSBICA!
dia 6/6, 12h.
concentração: praça do ciclista, avenida paulista, SP
oficina de confecção de cartazes lésbico-radicais, máscaras combativas, tambores, stencil, feirinha lesboterrorista.
venham compôr a bloca com a gente!

8 de março também é das sapatão!

labrysludista
8 de março é uma data que remete às mulheres trabalhadoras que foram queimadas por patrões numa fábrica como repressão por protestarem e realizarem uma greve auto-organizada apenas por mulheres contra a extrema exploração e injustiça do sistema capitalista, mostrando que, desde os tempos da caça às bruxas e inquisição, mulheres resistentes a sistemas opressivos vem sendo queimadas e assassinadas. Muitas dessas resistentes foram também as lésbicas, que como Adrienne Rich coloca, “antes que existira ou pudesse existir qualquer classe de movimento feminista, existiam as lesbianas, mulheres que amavam a outras mulheres, que recusavam cumprir com o comportamento esperado delas, que recusavam definirem-se em relação aos homens, aquelas mulheres, nossas antepassadas, milenares, cujos nomes não conhecemos, foram torturadas e queimadas como bruxas”A História segue se repetindo, e o mecanismo político da fogueira e do estado de genocidio do povo político das mulheres – que é o Patriarcado – segue se dando e é preciso lutar contra ele.
Integrar uma resistência política não vem sem ataques por parte dos opressores. Definimos a Lesbofobia como um aparato de repressão a serviço da Heterossexualidade Compulsória, regime político que obriga a conformidade das mulheres nas classes sexuais de modo a manter sua exploração pela classe dos homens por meio da violência, invisibilização, aniquilamento.
Como o 8 de março é uma data histórica que fala da mulher trabalhadora, queremos falar aqui da lésbica trabalhadora, que nunca é pautada na data:
A Lesbofobia precariza economicamente a vida das lésbicas. Muitas vezes vivendo em diáspora, fugitivas da classe mulher, fugitivas e expulsas de instituições patriarcais como a família, possuem recursos de sobrevivência limitados. Diferentemente das companheiras e de suas parentes heterossexuais, muitas vezes tem que sair de casa cedo, ou de suas cidades de origem, onde existem poucas como ela, expulsas pela força da discriminação e da ameaça de violência que são constantes nas vidas lésbicas. Isso faz com que não terminem seus estudos e tenham que buscar empregos precarizados para pagar o aluguel ou custear sua vida longe de seus agressores. Em entrevistas de emprego, não é contratada pelo seu aspecto pouco feminizado: por ter cara de sapatão. No ambiente de trabalho, vive escondida ou sofre demissões por ser lésbica visível ou por descobrirem que o é. Na sua carência de recursos materiais e de afeto se torna dependente emocionalmente nas suas relações afetivas, pois funcionam também como apoio mútuo e sobrevivência. Estas relações não são reconhecidas nem apoiadas economicamente pela família, ou pelo Estado, ou pela Sociedade. O isolamento em um casamento lésbico pode torná-la dependende da companheira por compartilharem recursos materiais, e se caso a lésbica se encontra em situação de violência doméstica, esta situação é totalmente invisibilizada na sociedade, o que torna ainda mais difícil para uma lésbica vítima sair da situação. Ao buscar denunciar, a lei Maria da Penha falha enormemente com lésbicas, que são caçoadas por policiais nas delegacias ao fazer o boletim de ocorrência e a discriminação torna arriscado romper com o silêncio. Se possui crianças, o Conselho Tutelar tenta muitas vezes tomá-las por considerar a mãe lésbica uma indecente. Nos trabalhos, a Lésbica tem que provar ser ainda melhor que seus e suas companheiras heterossexuais, tendo que se esforçar duplamente para ganhar aceitação e não ter seu trabalho mau reconhecido em função de  sua sexualidade. O excesso de trabalho e o  sofrimento da invisibilidade afetam a saúde mental das lésbicas que padecem de ansiedade, depressões,e outros adoecimentos comuns gerados no ambiente laboral. O assédio sexual (estupro corretivo) no trabalho e a fetichização das lésbicas também são uma realidade do Terrorismo Sexual supremacista masculino. Se a lésbica é também negra, sofre ainda mais em termos de objetificação, exclusão, discriminação e precarização.
Acreditamos que o Capitalismo Heteropatriarcal e a Supremacia Masculina devem ser abolidas. Acreditamos na Lesbianidade não como orientação sexual, mas como um ato político de resistência e um projeto político de um mundo onde todas as mulheres possam ser livres. Sendo o modelo econômico existente uma imposição dos patriarcas brancos, queremos a destruição dele, parar o modelo econômico predatório que estupra[1] a Terra com o agronegócio e envenena os alimentos e recursos hídricos, mata animais e populações nativas, para favorecer a apoia mútua e resgatar o respeito ao meio ambiente.
8 de março não é dia para festejar a ‘mulheridade‘. Lésbicas são o conceito da fêmea[2] selvagem antes de sua apropriação pela classe dos homens, que a encerra na categoria Mulher. Somos fugitivas dessa classe e desse conceito. Não queremos flores, queremos molotovs contra o Heteropatriarcado e todas suas instituições opressivas, em solidariedade também com as demais espécies do planeta.
Contra o Heterosistema Racista, Classista, Especista, pela abolição das classes sexuais e econômicas, 
Pela Autogestão das Mulheres
Rebeldia Lésbica!
Sapatões Proletárias, Periféricas, Negras, Radicais e Autônomas, na Luta!
[1] Consideramos certo dizer que a terra é estuprada pelos grandes latifúndios e por todo processo de envenenamento, monocultura e reprodução forçada da qual é obrigada e a desertifica, a mata, para enriquecer patriarcas carnívoros que se apropriaram das terras, e porque a Terra e sua vida é identificada frequentemente, desde as mitologias ancestrais, com as Mulheres, sendo o ataque às Mulheres e ao Meio Ambiente expressões simultâneas e de um mesmo ódio patriarcal contra valores biofílicos. Estamos usando estupro como metáfora muito concreta do que vemos que ocorre com os ecosisstemas, violentados pelos machos. Acreditamos que a violência desse processo de destruição ambiental e seus impactos constitui um dos ritos e pilares fundamentais da Masculinidade. Sabemos de todas problematizações sobre o uso da palavra estupro, mas a usamos em demonstração de sororidade com a Planeta e não exclusão desta de nosso feminismo, representando nossa posição ecolesbofeminista de defesa da Matriarca/Deusa Terra. Não queremos medir palavras. Precisamos gerar consciência e sensibilidade e falar a verdade.
[2] Sabemos que as mulheres negras problematizam o conceito de fêmea. Aqui tentamos utilizar o termo fêmea não na sua conotação patriarcal pejorativa e especista de mulher não-humana, mas justamente o estado da pessoa que se considera hoje mulher, antes do acontecimento histórico que cria as classes sexuais homem e mulher. Isso não quer dizer que não vemos o conceito de mulher como politicamente útil e imprescindível para reconhecer o estado de opressão e a única e exclusiva sujeita do feminismo, apta para abolir e superar o Gênero por meio da destruição das classes sexuais, e pela necessidade de nos remeter a esta materialidade política.
[3] Com respeito ao termo proletária, posteriormente foi problematizado como heterocentrado, porque proletária se refere à prole, coisa que somos contra (reprodução). Também não excluímos desta definição as lésbicas autogestivas porque consideramos ‘trabalho’ no sentido de produção dos meios de vida. Estamos aqui como anti-trabalho, se trabalho se considera no sentido do capitalismo atual, queremos destruí-los.[4] As questões levantadas aqui sobre as lésbicas e suas questões com o trabalho e sobrevivência foram a síntese de questões surgidas em nossos grupos de autoconsciência, o interesse em aproveitar o tema da data também se encontrou com questões que apareciam na nossa grupa e uma tentativa de sair dos pequenos espaços de encontro para levar para o mundo público e para a ação política.

Saudações humanas…

“Bem -vindas …………… .

Sabe, eu sou lésbica há 30 anos. Eu me assumi quando tinha 21 anos, e em uma semana faço 51.

Vocês sabem do que a comunidade lésbica precisa?

Nós precisamos de um fórum cultural. Nós precisamos de um lugar na natureza, onde possamos ir e fazer o que fazemos melhor, que é celebrar a Mãe, celebrar umas as outras, amar umas as outras, falar de nossas vaginas, falar de nosso sangue, falar de nossas crianças, falar de nossas netas/os, falar da Mãe Terra, falar sobre consciência lésbica. E nos juntarmos e usar nosso poder enquanto mulheres para avançar nossa causa e nossa jornada.

Nós estivemos tão presas nessa conversa de identidade de gênero, e quem é realmente mulher, quem pode ser mulher e quem… Sabe, nós tivemos que lutar e gastamos muito tempo pontuando/dizendo algo que não tem como ser pontuado.

Por que deveríamos considerar tanto questões sobre identidade sexual, de gênero, masculina? ..Num momento em que nossos restaurantes estão sendo fechados, as estruturas educacionais que construímos, nossas organizações,…

Isso não é progresso. Quando a cultura e a identidade lésbica estão sendo diminuídas e nós não podemos dizer que somos mulheres, nós não podemos celebrar nossos seios, nossas vaginas, nosso sangue e nós estamos sendo barradas/excluidas na mídia, nas nossas comunidades. Isso é opressão.

Então o que pessoas oprimidas fazem? Não se dá a eles essa atenção, o que fazemos é dar a nós nossa atenção, dar às nossas causas nossa atenção, dar a nossa sexualidade nossa atenção, dar nosso cuidado.. Nós estamos ficando velhas, algumas estão tendo bebês, sabe, estamos em diferentes fases da nossa vida. Somos masculinas, somos femininas, somos andróginas, somos muitas coisas, mas somos mulheres e somos lésbicas e precisamos nos juntar. Temos que perceber o tempo nesse planeta, a divindade está nos chamando, a Mãe está nos chamando, esse planeta está em perigo, está sob o patriarcado e misógina há tanto tempo que estamos programas a brigar de uma forma.. Nós não… Nós temos uma inteligência entre mulheres e lésbicas que é muito mais abrangente do que o que esse planeta tem nos oferecer nesse momento. E eu imploro a nós mulheres que nos juntemos, usemos nossa babailá, nossa bruxaria, nossa ioruba, nossa medicina ancestral. Para que nós passamos fazer por nós o que sabemos que deve ser feito. É tempo pra isso. Esta na hora de todas as mulheres que amam mulheres se juntarem e dizerem a verdade sobre quem somos. ”

pippa fleming

comunicacion desde la cárcel

Todas queremos um mundo que sintamos merecer em vez de padecer. Não suportamos mais esta ideologia global obrigatória do padecimento – “complementariedade” masculina. Queremos um mundo sem mais autoridade-propriedade que a própria. Um mundo onde todas possuam um conhecimento fundamental primordial: da onde viemos e para onde é importante chegar (A Nada)1… o que é uma intuição generalizada nas fêmeas, humanas e nas demais espécies, já tem nome, se faz mais concreto. Não sei quantas, e os números pouco me interessam; há como eu, com uma maldição-missão como a minha: ‘o fim dos tempos’. E para isso estou na investigação, redescobrimento de minha Divindade a nível essencial (espiritual o almático) molecular. Como misândrica poucas coisas me importam devido a masculinização de tudo, e na única reforma que creio, é a da fêmea dentro do monogênero sexual ou monossexismo.

Para muitas minha radicalidade, autonomia, ódio-coerência; que eu resumo em misandria; é absurdo, mais a mesição nada tem a ver com a democracia, e qualquer argumentação de que uma possibilidade outra ‘melhor’, ‘menos violenta’ é completamente cristã, embora aqueles que argumentam não se enterarem de seu sacrifício, do sacrifício do feminino da felicidade. Se isso mais além das palavras. Me disponho a fazer uma lista de 40 de meus desejos, por hora, agora que minha mente late tranquila…


(por astrid elena soto londoño, lésbica feminista atualmente sequestrada (presa) pelo estado colombiano, envia algumas comunicações para além dos muros de seu encerro. Esta é uma primeira tentativa de difusão de suas escrituras e de sua situação em língua portuguesa.)

[1] feminização do nihilismo

 

livreto EU-LESBIKA por FORMIGA

EU-LÉBIKA é um livreto de poesias, que inspirado da ideia faça você mesma tem formato de fanzine. São 14 poesias de sobrevivência favelada, uma KOR-pa miscigenada que só consegue resistir reivindicando negritude por de rebeldia afropunk, na qual o pogo é a própria ginga. Em nome de uma sororidade feminista gravada em memória afetiva, denuncia mazelas sofrida por mulheres-irmãs. Ousando vociferar nas ruas a paixão lésbica, além de um ato de profundo ginoafeto e desmisogizanação, é uma ação direta antipatriarcal. Vem afirmar por meio das rimas, como um tambor-coração conectado com a ancestralidade, que o pessoal é político!

(resenha por formiga)
manas
próximos lançamentos: Feira do livro anarquista de SP, Festival de Filme Anarquista e Punk de SP.
pontos de venda: festas desamélia, feyras limdas, círculo de reflexões lesbafeministas, contato direto com autora ou com a editora.Também se tiver interesse em adquirir, pode comentar nessa postagem ou escrever para heresia.lesbica@riseup.net
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Trecho de uma carta de Sheila Anne, lésbica separatista norte americana

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“O separatismo lésbico é nosso desejo de amar a nós mesmas e a outras lésbicas enquanto lésbicas. É um impulso vital de sobrevivência. Ao enfocar no amor e o cuidado pela vida das lésbicas, nós criamos um mundo de criaturas amorosas, onde há espaço para um Eu e um Outro de mulher. Para criar este mundo, conscientemente escolhemos viver num processo de separação dos indivíduos, instituições e forças internalizadas que odeiam e destróem as mulheres/lésbicas e todas as outras formas de vida do planeta. Nós nos separamos desses indivíduos, instituições e forças internalizadas (as injúrias insidiosas que jogam umas contras as outras) de todas as formas possíveis. E constantemente nos desafiamos a expandir estas formas possíveis… Não há um único modo de ser uma lésbica separatista ou de viver o separatismo lésbico (…) De qualquer maneira, enquanto estamos nos separando do heteropatriarcado, com menor ou maior sucesso, em diferentes áreas de nossas vidas, o importante é lembrar que permaneceremos num processo contínuo de união com outras lésbicas, criando comunidades que atendem às nossas necessidades. É certo que, às vezes, o que buscamos é nebuloso. Nós caminhamos do que sabemos para o que desejamos, assim é mais fácil definir do que estamos nos separando para onde estamos indo (…) O separatismo cria a possibilidade e o espaço vital para pensarmos assim.(…) Lésbicas são seres muito poderosos que podem criar, neste mundo, o mundo que imaginamos”. (Boletim Um Outro Olhar, nº 16 outono de 1992, p. 25)

antes que existisse qualquer classe de movimento feminista, existiam as lesbianas

“Antes que existira ou pudesse existir qualquer classe de movimento feminista, existiam as lesbianas, mulheres que amavam a outras mulheres, que recusavam cumprir com o comportamento esperado delas, que recusavam definirem-se em relação aos homens, aquelas mulheres, nossas antepassadas, milenares, cujos nomes não conhecemos, foram torturadas e queimadas como bruxas.”

– Adrienne Rich

“O que significa a palavra lésbica pra mim”

“Eu sempre me identifiquei muito com a palavra lésbica, e gosto dela principalmente porque nomeia mesmo, porque é visível, nunca quis me ver como gay nem homossexual, a palavra é separatista em si. E pra mim ela expressa uma ética também feminista integral de vida e é se visibilizar para outras lésbicas. O poder deste nome pra mim tem haver com que quando você assume esse nome, assim se nomeia, é um ato de extrema coragem num contexto de lesbofobia e anti-mulher, e quando você o faz, assim como sapatão, você está visibilizando também outras lésbicas. Outras minas que se sentirão encorajadas a assumir esse nome e visão. E assim você transmite uma noção de pertencimento e uma memoria de resistência também. É pra mim impressionante o poder que tem esse nome, e por isso mesmo acho que não deve nem ser apagado, nem banalizado, deve ser defendido por nós e cuidado. E por isso que afirmamos que quem pode assim nomear-se são unicamente aquelas com vivência lésbica, e as únicas que podem também definir este nome assim como as políticas lésbicas. Ser lésbica e assim se nomear e visibilizar é também sobre honrar as lésbicas enquanto coletivo. As que nem tem voz.  Esse nome tem poder e é temido, odiado, e é ainda mais importante num contexto em que muitas andam jogando fora este nome junto ao de mulher, usando ‘queer’ pra se definir… Por isso é importante gritá-lo. Ele incomoda muita gente.”

SENALE, desaparição dos espaços de resistência lésbicos, relativização de identidades e separatismo

por Andressa Stefano

*SENALE: Seminário Nacional de Lésbicas, que ocorreu em abril de 2014 em Porto Alegre. Neste seminário foi enterrado o histórico espaço de lésbicas, responsável dentre outras coisas pela articulação das caminhadas lésbicas pelo país e pelo dia da Visibilidade Lésbica. No seminário foi votada a mudança do nome para Senalesbi.

Se o movimento feminista não é crítico do Poder, não é movimento: são funcionárias do Estado.

Lidia Falcón

A pós-modernidade que se infiltra no movimento feminista está despolitizando e descentralizando as pautas do movimento das mulheres. E uma das táticas disso, é a ressignificação do conceito de feminismo, ou uma ampliação do que seriam vários conceitos de “feminismos”. Temos que retomar o conceito de feminismo, e, a partir desse conceito, é inevitável que surjam diversas táticas de combate ao patriarcado. Essa abertura, relativiza e desestabiliza as forças que sempre pulsaram na base do movimento (ou seja, as próprias sujeitas, as lésbicas) e que lutam por pautas específicas e materiais, por termos realidades materiais e opressões materiais. A segunda onda feminista foi de onde mais saíram escritoras e teóricas, e, infelizmente, estão sendo apagadas à força pela academia engolida pela teoria queer, e, mais recentemente, o ativismo trans.Uma das consequências dessa relativização do conceito de feminismo, é também a relativização da identidade lésbica. Se para os liberais não existem estruturas, tudo é auto-identificação e relativismo, então qualquer um(a) pode ser lésbica, qualquer um pode ser mulher. Basta se “identificar” com essas categorias. O que eu vi no SENALE foi a materialidade do que antes só estava na academia e em ambientes restritos. Me assusta ver feministas marxistas e materialistas fechando com o conceito de “identidade de gênero” e mais surreal que isso só mesmo “falo lésbico”. Me pergunto se isso é uma tática partidária, ou se é falta de formação política da juventude feminista. Qualquer uma das duas, é extremamente preocupante e me faz temer o rumo que o feminismo está tomando enquanto movimento político, e quais pautas concretas, a curto, médio e longo prazo, nós queremos trazer para a realidade das mulheres lésbicas. Essa “união” e uma teórica “visibilidade das bissexuais” está desarticulando o único movimento que ainda tínhamos para falar sobre nós, sobre as nossas vivências, e nos organizamos politicamente enquanto sujeitas autônomas, de um feminismo revolucionário, e não mais um espaço colonizado, em que as lésbicas são secundarizadas e marginalizadas.Lésbicas existem muito antes do feminismo existir enquanto corrente teórica e movimento social. Lésbicas foram queimadas em praça pública, foram bruxas, foram mortas, foram estupradas. Lésbicas resistiram à heterossexualidade como regime político, foram marginalizadas, excluídas dos espaços públicos e políticos. Lésbicas feministas resistiram à apropriação e invisibilidade do movimento LGBT que sempre foram espaços majoritariamente masculinos que não nunca se propuseram à lutar para um desmantelamento da supremacia masculina, mas sim, uma reforma política para uma “convivência pacífica” entre as ditas “minorias sexuais” e uma manutenção das estruturas patriarcais que mantém as mulheres sob controle masculino. Os espaços gays neo-liberais sempre foram tóxicos para as lésbicas, sempre foram colonizadores e despreocupados com a nossa vulnerabilidade peculiar na sociedade feita por homens e para homens.Lésbicas radicais propuseram e propõe espaços de resistência apenas de lésbicas com o intuito de fortalecer a autonomia e a militância combativa e organizada. Separatismo é resistência. É tática neo-liberal nos fazer acreditar que temos que nos unir “a tudo e todos”. Gays não vão lutar pelas lésbicas. Gays estão preocupados em manter o status quo e manter o acesso aos nossos corpos mesmo que, supostamente, não tenham desejo pelos mesmos. Trans vão lutar pela identidade de gênero, pela aceitação dos seus nomes sociais perante o Estado, mas não vão lutar efetivamente pela desnaturalização da violência que acomete as fêmeas. Vejam que, dentro do ativismo trans, os homens trans não são destaque, e isso é só uma consequência de um movimento que privilegia o sexo masculino, assim como quase todo movimento social. Se não lutarmos pelas pautas que nos acometem, das quais somos protagonistas, querendo fazer maternagem com outros grupos vulneráveis, estes mesmos grupos não o farão pela gente. O movimento feminista é o único movimento em que existe uma coerção para acolher “à todxs”, como uma grande mãe que luta por todos aqueles que sofrem. O FEMinismo é para nós. Saio deste SENALE decepcionada, sentido falta de FEMINISMO LÉSBICO. O que é uma incoerência absurda em um seminário que tem um slogan de “lesbiandade e feminismos”. Proponho uma união entre as sapatas, em pensarmos em como construirmos de forma autônoma e efetiva um novo espaço de articulação. Mais uma vez, nós estamos saindo dos espaços, enquanto todo o resto se pendura no braço movimento lésbico.